Presente de Natal


22 de dezembro Caminhávamos pelas ruas da cidade quando vi um Papai Noel. Aquela visão se encaixava perfeitamente com as luzes pisca-piscas das casas, comércios e arvores decoradas que fascinavam meus olhos naquela noite. Ele parecia ter saído de um mundo de imaginação. Tinha a barba branca como neve de inverno, um rosto rechonchudo de pele pálida corada com bochechas roseadas pelo frio e um corpo cheio, nem gordo demais, nem forte demais, o suficiente para ser o Noel perfeito. ⠀ — Rô, vem cá! Vamos pedir pra tirar uma foto com ele. — disse Sofia me puxando pelo braço com suas pulseiras chacoalhando e emitindo o som dos pingentes se colidindo. ⠀ — Oi! Com licença, poderíamos? — perguntei para o Homem fantasiado mostrando meu celular. ⠀ — Ho ho ho — gargalhou com uma imitação perfeita do bom velhinho — Mas é claro que sim meu jovem. ⠀ Me preparei para tirar a foto e na hora que fui apertar o botão o aparelho emitiu um som agudo e apagou, indicando que havia acabado a bateria. ⠀ — Oh! Não, que pena meus caros. — falou timidamente aquele Noel. ⠀ — Não tem problema, o senhor é o Noel mais perfeito que eu já vi, só queria ter como recordação. — comentei ⠀ — Verdade, você deve ganhar uma grana preta com esse trabalho. — completou Sofia. ⠀ — Não é trabalho e eu não ligo para dinheiro minha jovem. Ho ho ho — sua rizada ecoava terna e doce pela noite — Digam-me, que presentes desejam esse Natal? ⠀ — Ah! Eu não preciso de mais nada. Já tenho tudo que desejo! — Sofia falou enquanto me abraçava. ⠀ O homem que parecia saído direto da minha imaginação, encarou-me com um sorriso acolhedor esperando uma resposta. Me aproximei de seus ouvidos e sussurrei. ⠀ — Desejo a mão dela, mas é segredo nosso hein. — me afastei e o vi dando uma piscadela sendo cúmplice do pedido que eu faria em breve. ⠀ Nos despedimos dele e continuamos caminhando rumo a casa de Sofia. Um vento frio atravessou a noite arrepiando meus cabelos e uma sensação sombria se apossou de meu corpo. Sentia alguém me observando, olhei para trás e o bom velhinho havia desaparecido, como se nunca estivesse estado ali. Puxei minha namorada para mais perto e acelerei o passo para sair dali. ⠀ ⠀ 23 de dezembro ⠀ TRIIIIIM TRIIIIIIM TRIIIIIIIIIIIIIIIIIIM ⠀ O telefone fixo gritava naquela manhã me despertando do sono profundo. ⠀ — Alô? — perguntei encaixando o aparelho na orelha. ⠀ — Roberto, minha filha está aí contigo? — perguntou a voz do outro lado da linha. ⠀ — Bom dia, dona Márcia — respondi irritado com uma sogra que nunca gostara de mim. — Deixei ela ai na sua casa ontem de madrugada. ⠀ — Tem certeza disso? — respondeu com a voz engasgando. ⠀ — Tenho sim, esperei ela entrar em casa antes de vim para a minha, como sempre — uma preocupação começou a surgir dentro de mim. ⠀ Ouvi um choro entre soluços vindo do outro lado da linha, quando fui procurar saber mais do que havia acontecido, escutei o baque surdo do telefone sendo desligado. ⠀ Com o coração disparado, vesti-me o melhor que pude e sai de casa para descobrir o que aconteceu com minha namorada. Chegando em sua casa, notei dois carros de polícia parados na frente com as luzes vermelhas e azuis piscando e rodando, aumentando minha aflição. Avistei dona Márcia conversando com um oficial e me aproximei. ⠀ — Senhora, não nos restam dúvidas — ouvi ele dizer — Sua filha foi raptada pelo sequestrador natalino… ⠀ Ao ouvir aquele nome, gelei. Desde o começo de dezembro surgiam varias noticias sobre uma porção de pessoas que estavam desaparecendo aleatoriamente. A única coisa em comum com todas elas, era a presença de um pequeno globo de neve, com uma pequena caixa de presente em seu interior, servindo de peso para um bilhete no local do sequestro. ⠀ Nele havia escrito apenas: Ho Ho Ho. ⠀ ⠀ 24 de dezembro ⠀ Não consegui pregar os olhos. Depois de passar o dia anterior inteiro dando depoimentos para a polícia e tentando não perder a cabeça, a última coisa que eu queria fazer era relaxar. A preocupação e a incerteza do que havia acontecido com a mulher com quem eu decidira dividir a vida, me deixava aflito e angustiado. Aquele sem dúvidas seria o pior natal da minha vida. ⠀ Os brilhantes pisca-piscas da árvore montada na sala, me faziam lembrar o tempo todo de seu sorriso ao ver as luzes de natal nas ruas. Levantei e puxei o fio da tomada, evitando assim pensar no acontecido. ⠀ Não me sentia disposto para sair, então liguei para meus pais e inventei uma desculpa, sem mencionar o desaparecimento, e avisei que não iria passar a ceia com eles. Eu preferia ficar sozinho do que acabar com o natal de mais pessoas. ⠀ Passei o dia inteiro mergulhado em uma melancolia sombria. Chorava, me culpava e me sentia um inútil por não poder fazer nada para ajudar a encontrar minha namorada. Pesquisei, sem resultados, na internet por qualquer pista que ajudasse a descobrir seu paradeiro ou qualquer notícia de que a tivessem reconhecido. ⠀ A noite chegou e o cansaço finalmente tomou conta da minha mente. Deitei no sofá e mesmo relutante, adormeci próximo ao telefone. ⠀ ⠀ 25 de dezembro ⠀ Acordei com o barulho de passos arrastados pelo apartamento. Abri os olhos e me deparei com o ambiente sendo iluminado pelos pisca-piscas. Não era possível, me lembrava de as ter desligado na noite anterior. Olhei em direção da tomada e notei que o fio das luzes ainda se encontrava desplugado. ⠀ Um vento gélido invadiu a sala. Me virei para a janela a tempo de ver um vulto avermelhado se jogar, do décimo primeiro andar, para o breu da madrugada. A figura que eu havia visto lembrava muito um homem gordo levando nas costas um grande saco cheiro de coisas. Me levantei as pressas para ter uma visão melhor do intruso. Olhei para fora de casa e não havia ninguém além da cidade adormecida. ⠀ Um medo súbito se apossou de mim e percebi com o canto dos olhos que os pisca-piscas tinham se apagado. A escuridão havia se voltado para o apartamento deixando um temor dentro de mim. ⠀ As primeiras luzes do dia começavam a ganhar espaço com o raiar do sol, através da manta de prédios. Tentei me acalmar. Eu tinha passado por muita coisa naqueles dias. Aquele vulto e as pequenas lâmpadas coloridas ligadas, deviam ter sido apenas parte de um pesadelo acordado que tive. ⠀ Sentei no sofá, limpei o suor da testa e notei embaixo da árvore-de-natal uma caixa branca com um laço vermelho que eu não reconhecia. Me aproximei do estranho presente e percebi, mesmo com a pouca luz, que sua base estava molhada por um líquido espesso e escuro. ⠀ Com as mãos tremendo desatei o laço. Com a respiração ofegante e o corpo todo tremendo levantei a tampa. ⠀ O Horror daquela cena me fez vomitar. Minha visão ficou branca e embaçada. Esperei pelo desmaio que não aconteceu. Me forcei a olhar dentro da embalagem mais uma vez, querendo não acreditar que fosse verdade o que eu havia visto. Em seu interior se encontrava uma mão pálida decepada por um corte grosseiro e irregular acompanhada de várias pulseiras com pingentes diversos que eu conhecia muito bem e ao lado dela, mergulhado na poça de sangue, havia um bilhete com uma simples mensagem: ⠀ HO HO HO, feliz natal. ⠀ ⠀ ------------------------------------------------------------------
⠀ Iniciamos a semana do Natal Bizarro!!! ⠀
A ideia desse conto veio da @voandocomlivros(Instagram): ⠀ "Um Papai Noel serial killer que deixa pedaços de vitimas nas chaminés como presente de natal. ho ho ho." ⠀
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