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Carnaval

Foto do escritor:  Nicolas Azobrab
Nicolas Azobrab
16 de fev. de 2021
5 min de leitura


"Atenção!

O conteúdo desta história pode ser delicado para algumas pessoas."



Eu precisava me divertir. Meu final de ano havia sido carregado de problemas. Minha irmã havia terminado com o namorado e chorava pelos cantos, minha tia-avó sofreu uma queda no banheiro e fraturou o pulso e com tanta choradeira e idas ao hospital, acabei por ter uma virada decepcionante.


Janeiro me prometia praias e muita curtição, mas a onda depressiva que circundava minha família não deixou que eu pudesse aproveitar as tão sonhadas férias de verão. Porém, em fevereiro estava programada a maior das festas do ano e essa eu não poderia faltar. Puxei juliana de lado, segurei o rosto dela para que me encarasse nos olhos e falei:


— Mana, carnaval está chegando e eu não quero ouvir “não” como resposta. Precisamos disso! -- Falei sentindo a culpa por ter sido eu a causadora do término dela.


— Não estou no clima Mari — disse ela querendo desviar o olhar — Não sei o que o Jonas iria pensar disso.


— Se liga meu! O cara te traiu, pare de ficar pensando nele. Aproveite os bloquinhos que estão por vir para esquecer dele e pegar geral — falei — Eu vou, como ou sem você! Mas eu preferiria que a minha irmãzinha fosse, como nos velhos tempos.


— Tá bom, você venceu — Juliana falou esboçando um sorriso —, mas eu quero escolher pelo menos um dos bloquinhos e você não vai poder reclamar, diferente dos velhos tempos.


— Ok ok, sofrer por um dia não vai me matar neh — finalizei começando a rir junto de minha irmã.


***


Após três dias de pura diversão e curtição, nós seguíamos cada vez mais empolgadas. O glitter já fazia parte de nossos corpos, a cerveja barata havia se tornado nossa fonte de hidratação e as vibrações das músicas sincronizavam as batidas de nossos corações. Tudo isso somado assumia a forma da cura para nossa tristeza e tempos de pesar.


O bloco que minha irmã havia escolhido não era nada mal. Ela, personificada em guerreira amazona, já não pensava mais no Ex e aproveitava cada segundo para ter aquilo que por dois anos e meios havia sido privada. Enquanto ela pescava e era pescada para beijos, por garotos de todos os tamanhos, cores, fantasiados ou não, eu me esbaldava com ambos os sexos. Minha mãe sempre me olhava torto quando eu dizia ser diferente e era naquele ambiente de festa e libertação que eu podia ser quem eu realmente era.


O sol torrava nossas cabeças, a música agitava a galera e o copo de cerveja permanecia cheio quando um calafrio percorreu meu corpo. Com o canto do olho notei uma movimentação estranha ao redor do bloquinho de carnaval. Olhei em volta procurando entender qual a fonte da minha inquietação e notei algumas pessoas trajando a mesma fantasia cercando a multidão. Usavam ternos e gravatas. Tanto os homens como as mulheres, trajavam máscaras semelhantes a rostos que eu só conhecia devido às interrupções da transmissão da TV para propaganda eleitoral.


Um sentimento ruim se instalou dentro de mim. A festa seguia como se aquela gente estranha não estivesse ali e eu me sentia cada vez mais sufocada. Voltei a atenção para avisar Juliana de que eu precisava sair para tomar um ar, quando percebi que a perdi na multidão.


— Onde está minha irmã? — perguntei para um rapaz vestido de Aladim que a pouco estava beijando-a.


— Não sei — ele gritou por cima da música alta — Ela disse que ia comprar uma breja ali na frente — respondeu apontando além das pessoas.


Me forcei a criar um caminho por entre personagens de diversos programas televisivos, folclores, lendas e livros para encontrar minha irmã.


É engraçado como nossa perspectiva de algo muda quando nossos objetivos se alteram. Enquanto eu me divertia, pulava e dançava, o empurra empurra das pessoas era algo bem vindo e às vezes até desejado, mas enquanto eu procurava Juliana, aquilo disparava uma raiva e angústia dentro de mim.


Vislumbrei uma fantasia de amazona debaixo de um guarda-sol amarelo pagando pela bebida, umas cinco pessoas à frente. Gritei pelo nome de Juliana tentando conseguir sua atenção. A garota percebendo minha agitação e se virou em minha direção cruzando com meu olhar. Pude vislumbrar o sorriso da estranha se transformar em dúvida, vendo eu, uma completa desconhecida, a chamando. Aquele mal entendido que me embrulhou o estômago, poderia ter sido facilmente resolvido se logo em seguida o mundo não girasse de ponta cabeça.


As pessoas mais afastadas do bloquinho, começaram a se debater com as mais ao centro, diminuindo ainda mais o espaço entre uma e outra. Gritos se sobressaíram por cima da música e a folia foi rapidamente substituída por desespero coletivo. Tentando chegar próximo de minha irmã, olhei para os lados e notei o povo, que usava aquelas estranhas fantasias, empunhando armas nas mãos. Eles apontavam os canos acinzentados de vários tamanhos para as pessoas que se amontoavam.


Um barulho ritmado ensurdecedor cortou o ar. O suor, a maquiagem e a purpurina dos corpos amontoados foram rapidamente cobertos por jorros avermelhados. O cheiro da urina e da bebida alcoólica foi substituído por um pungente odor ferroso.


Não tinha noção de onde Juliana poderia estar. Meu instinto agiu mais forte e me abaixei diante do tiroteio. Pernas tropeçavam e me pisoteavam, mas eu fazia de tudo para manter pelo menos a cabeça protegida. Me entreguei ao medo, ao terror e ao desespero. Por mais que quisesse saber da segurança da minha irmã, naquele momento eu só pensava em mim mesma.


O caos não durou muito, mas na minha cabeça pareceu durar uma vida inteira. A música tocada pelo carro de som, voltou a reinar abafada e distante por cima dos lamentos e gritos de agonia. Os pseudopolíticos recolheram suas armas e, como se nada tivesse acontecido, se viraram para ir embora calmamente.


Com cuidado, afastei o corpo da bailarina que havia caído por cima de mim e com grande esforço me levantei em meio aos mortos. Observei outras poucas pessoas fazendo o mesmo por toda extensão do bloco de carnaval. A reação de todas elas era a mesma que a minha: estavam em choque. Toda a alegria que permeava o local havia sido drenada, liberando espaço para medo, sofrimento e angústia.


As dores do meu corpo me trouxeram de volta à realidade e passei a procurar por minha irmã, novamente. Minha visão embaçava e dificultava a procura. Minha respiração se tornava cada vez mais pesada e o choro ameaçava transbordar.


Quando comecei a pensar no pior, vislumbrei uma figura distante afastada das pilhas de corpos. A amazona fitava com um olhar impassível todo aquele massacre. Acelerei o passo gritando por seu nome.


Juliana notou minha aproximação e pude ver seus olhos se encherem de lágrimas, assim como os meus. Com um movimento rápido, ela jogou aquela estranha máscara que o grupo de engravatados utilizava e sacou uma pequena arma escondida debaixo do escudo de sua fantasia. Sem pensar duas vezes, disparou.



FIM


Escrevi este mini conto a partir de um medo real, que eu sempre tive em todo carnaval, que me impedia de curtir 100% a folia.

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E você, possui algum medo de Carnaval ou mesmo de outras datas festivas do ano?? (Halloween não vale kkkk)

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😜Deixe suas críticas e comentários abaixo.

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❤️Obrigado por serem os melhores leitores e leitoras sempre!!!

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😉Nos vemos na próxima, um abraço contido e até a próxima!

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Crédito da foto: Maic Costa/Mais Minas








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