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Inferno Branco

Foto do escritor:  Nicolas Azobrab
Nicolas Azobrab
22 de dez. de 2020
5 min de leitura


Ela desejava a morte. Ansiava pelo beijo do nada absoluto levar sua vida. Pelo calor deixar seu corpo e enfim a envolver no gélido abraço da escuridão. Pelas batidas de seu coração cessar o seu trabalho árduo de manter o constante fluxo em seus vasos sanguíneos. Mas os nano-sangue injetados em suas veias não lhe permitia partir. ⠀ Aos vinte e três anos foi privada de sua liberdade. Com vinte e oito descobriu de que fora privada do envelhecimento. Aos cento e trinta e sete anos, redescobriu dentro de si uma mínima fagulha de esperança. ⠀ No seu aniversário de oitenta e dois anos, recebeu a liberdade da antiga cela que havia sido seu inferno por tanto tempo. O cenário de seus pesadelos, possuía o chão e paredes cobertas por azulejos brancos com uma iluminação que disputava apenas com as depressivas luzes hospitalares em madrugadas de calmaria. Sem janelas e com apenas uma porta vermelha, por onde entrava o seu captor quando tinha seus desejos sádicos, aquele local levara toda sua inocência. ⠀ Quando ele entrava, ela nunca sabia quão dolorosa seria a punição que receberia. Ele nunca dizia uma palavra, agia sem esperar cooperação. No começo ela lutava e gritava, mas via uma certa satisfação nos olhos dele e passou a ser submissa para não entregar o que ele queria, porém, ele também mudou seu modo de agir e partira para a mais pura violência. Não bastava mais violar suas partes íntimas, espancamento e humilhações. Ele adotou um gosto pela sagacidade da morte. ⠀ A assassinava de diversas maneiras diferentes. Às vezes era rápido e indolor com um corte na jugular ou um tiro na cabeça. Outras vezes era um pesadelo sem fim, cortando seus membros um de cada vez, arrancando suas unhas, quebrando seus ossos, asfixiando-a com um saco plástico ou mergulhando sua cabeça na privada para afogá-la. Sempre levava consigo uma maleta com uma seringa comprida que continha um líquido tecnológico que a trazia de volta a vida e curava as feridas, para que pudesse tortura-la mais uma vez. ⠀ Quando fez oitenta anos saiu do quarto da loucura, como ela o havia apelidado. Vislumbrou os outros cômodos da casa e procurou estudar maneiras para fugir. Ele a mantinha presa por uma coleira de cachorro pelo pescoço, mãos atadas com uma corda, que apesar de fina, se tornava cada vez mais resistente a cada tentativa de arrebenta-la e uma fita cobrindo sua boca. Ela observou a porta sem trancas, deu um chute no joelho Dele e se pôs a correr. Atravessou a porta e se deparou com um jardim grande e se surpreendeu com a localização da casa que não era afastada, mas sim no meio de uma cidade. Olhou para as opções de fuga que tinha. Correu em direção ao portão de ferro invés do muro baixo cercado por fios de alta tensão. ⠀ O som de um tiro seco ecoou em seus ouvidos enquanto desfalecia devido ao impacto do projetil que penetrou sua nuca. Como punição, foi trancafiada novamente no quarto branco. ⠀

Em seu aniversário de noventa e sete anos recebera novamente a oportunidade de subir para os cômodos da casa. Desta vez esperou pacientemente por uma oportunidade de pedir por ajuda. Ele a conduziu até um quarto com piso de madeira que continha as mesmas coisas que o anterior, mas com a vantagem de se poder apagar a luz e dormir no escuro sob o céu azul-acinzentado. ⠀ O momento chegou quando ele saiu trancando a porta atrás de si. Ela observou através da janela inteiriça de vidro, que tinha a sua altura e metade do comprimento do quarto, a movimentação das pessoas na rua que iam e vinham de seus trabalhos vivendo suas vidas. ⠀ Gritou com todas as forças quando os olhos de uma mulher cruzaram com os seus. Berrou até a garganta arranhar e as cordas vocais arrebentarem. A mulher simplesmente a ignorou, olhou para o detalhe de outra casa adiante e seguiu seu caminho como se ela não existisse. ⠀ Desistiu quando a voz rouca deu espaço para a dor da tosse seguida de sangue que já não era mais suportável. Chorou em silêncio aceitando que nunca seria libertada. Os soluços diminuíram e o cansaço enfim a dominou. A escuridão que tanto sonhou a embalava no sono quando das paredes veio o caos. ⠀ O som estridente de seus próprios gritos ecoavam das paredes. Seu grito de socorro desesperado era tocado em loop. A agonia daquele barulho estridente estourava seus tímpanos. Não suportando a tortura enfiou os dedos nas orelhas de modo a mutilar os próprios ouvidos para se livrar daquela loucura. Ele não havia gostado nada da sua atitude e a levou novamente para o inferno branco. ⠀ Ela perdeu quaisquer esperanças de escapar daquele local. Não ansiava mais a saída do quarto, nem sonhava mais com a escuridão dos cômodos acima. Apenas tentava adivinhar a próxima morte falsa que teria. Ele era esperto e nunca repetia as armas e métodos, mas quando ela pensava em todas as possibilidades que ele já havia testado, apenas uma lhe era estranha de nunca ter sofrido. ⠀ Quando fez cento e trinta e sete anos, ele abriu a porta vermelha sem a maleta em mãos. Ela soube na hora que iria ser conduzida para os andares superiores. A esperança, que havia permanecido dormente por tanto tempo, lhe queimava o peito. Subiram as escadas e a porta de saída ficou a sua vista. Não pensou, se curvou para frente, enroscou o fio que a prendia no corpo e com um chute o jogou pela escada. Tentou correr para alcançar a porta, mas acabou tropeçando na corda. ⠀ Viu estrelas quando bateu a cabeça na quina de uma mesa, mas lutou contra a dor e a tontura para se levantar. Ouviu que Ele já se recuperara da queda e vinha ao seu encontro derrubando tudo em seu caminho como se fosse uma força da natureza. Ela atravessou a porta e se viu correndo pelo quintal. ⠀ Para a surpresa Dele, ela correu para o lado oposto do portão. Engatilhou a arma e mirou. Quando ia apertar o gatilho ela se virou, o encarou e sorriu. ⠀ Ela sabia que naquele momento ela iria conseguir o que desejava. Mesmo que conseguisse escapar das garras dele, não haveria lá fora uma vida para ela. Não via mais sentido em tentar viver em um mundo que não conhecia, em uma sociedade que ninguém, além dele, sabia de sua existência e não a salvara. Chegou ao muro baixo, olhou para trás para ver a reação do seu captor e sentiu uma onda de felicidade outrora esquecida, tomar conta de seu corpo enquanto erguia o braço para tocar os fios elétricos. ⠀ Ela nunca soubera o porquê de nunca ter sido torturada por eletricidade. Colocou o resto de suas esperanças num único palpite e enfim soube que seu sonho fora realizado enquanto sentia a energia correr por todo seu corpo, causando curto-circuito em todos os nano-sangue que existiam dentro de si. ⠀ ⠀ Enfim, liberdade! ⠀ --------------------------------------------------------------------------- ⠀ Se você tivesse acesso a injeção de nano-sangue(Podendo viver centenas de anos), qual seria o seu pior pesadelo? ⠀ Deixe suas críticas e comentários abaixo. ⠀ Obrigado por serem os melhores leitores e leitoras sempre!!! ⠀ Nos vemos na próxima, um abraço contido e até a próxima! ⠀ Tags: #prisao #liberdade #claridade #luz #branco #inferno #terror #terrorpsicologico #vacina #injecao #quarto #viver #ler #leitura #escritor

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