Gatuna


Leka mantinha-se escondida como uma gata perseguindo sua presa. Mantinha uma vigilância constante a cada passo que o Seu Moacir dava. Sua barriga rugiu como uma leoa faminta. Calculava todas as rotas de fuga possíveis, se tivesse sorte, os filhos do vendedor de frutas não iriam captura-la, dessa vez.
Decorou a posição de cada fruta. Suas preferências eram as mais macias como banana, mamão e manga, mas no momento do ato, ela escolheria as mais fáceis para não ser pega na fuga.
Agiu quando Seu Moacir virou para beber a água de sua garrafa da sorte. Mais veloz que a Mulher Guepardo, saiu de sua tocaia. Driblou as pessoas que se amontoavam entre as barracas e furtou as frutas que conseguiu. Não resistindo a tentação de pegar a fruta favorita de sua heroína, esticou o braço para as belas maças avermelhadas que eram tão reluzentes como sua pele no calor.
— PAI, AQUELA MENINA TÁ ROBANDO NÓIS DI NOVO! — Gritou Maurício ao notar a pequena mão que se movia freneticamente em direção às maçãs.
— E TU TÁ FAZENDO O QUE, QUE NÃO FOI PEGAR ELA AINDA? — Resmungou Seu Moacir cuspindo a água. — Levanta dai seu preguiçoso, vá ajudar teu irmão a pegar aquela moleca. — Disse dando um pontapé em Rafael.
***
Virou a direita como se sua vida dependesse disso. Com os irmãos em seu encalço, corria com as frutas enroladas em sua camisa como um cesto improvisado. Mais dois quarteirões e se estaria livre. Já se imaginava como tendo salvado mais uma vez o dia.
Os gêmeos, três anos mais velhos, já sabiam qual caminho Leka escolheria. Correram pela rua paralela e se separaram esperando encurralar a garota.
Leka olhava para trás e não via nenhum rastro dos vilões. Os havia despistado como apenas um grande felino faria, mas para evitar quaisquer problemas, decidiu pegar um atalho pela rua da Dona Gertrude que sempre a ajudava a se safar quando precisava.
Um vulto esguio e comprido surgiu no fim da rua a fazendo parar de correr. Reconhecendo a silhueta, girou nos próprios pés e se pôs a correr por onde havia vindo. Parou quando notou o sorriso do clone que bloqueava seu caminho, vindo em sua direção.
— DONA GERTRUDE — Gritou acionando seu plano B. — Dona Gertrude!? — Disse com sua voz vacilando enquanto o coração disparado pela correria, disputava com o medo que tomava conta de seu corpo.
— Não perde seu tempo, pirralha. Aquela velha não vai te salvar hoje não. Ela saiu pra fazer uns exames… — Disse Maurício se aproximando da garota.
— Achou que nóis não sabia quem ajudava você nas fugas misteriosas? — Completou Rafael.
— Hoje você vai ver como é feio roubar de pessoas honestas!
— Por favor, deixa eu ir — Seu corpo todo tremia enquanto sua bexiga começava a liberar pequenas gotas amareladas. — Eles prec…
PAW.
Rafael acertou um soco, interrompendo a fala da garota que desorientada, caiu no chão. Leka não tinha as habilidades de fuga como as grandes personagens das revistas em quadrinhos, por isso, só fez esperar os socos e pontapés terminarem, desejando poder evitar sentir toda aquela dor.
O sangue escorria de seu lábio e supercílio aberto, varias partes de seu corpo, doíam, mas lamentava apenas pelas frutas que foram amassadas e trituradas durante a surra.
Com muito esforço, recolheu dos pedaços que não continham seu sangue ou estivessem muito sujos com poeira do chão. Caminhou o restante do caminho e quando chegou ao seu destino, deixou o cansaço a embalar e sentou-se no chão junto as revistas em quadrinhos, espalhadas pelo chão.
Escutou um miado agudo vindo do fundo do barraco de madeira.
— Não sejam tímidos, venham cá! Eu trouxe comidinha pra vocês. — Falou para os três filhotes de gato que surgiram de trás de um monte de roupas enquanto colocava as frutas numa tigelinha improvisada — Hoje vocês não vão passar fome! — Riu, ouvindo o rugido de seu estômago, tendo cumprido seu papel de heroína.
FIM
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