Chá de Sumiço


Fazia tempo que o copo mudara de meio cheio para meio vazio. A vida que antes eu achava ser maravilhosa, se tornou tediosa e a rotina, imutável. Acordar, pegar condução lotada, chegar atrasada, levar bronca, engolir o almoço, ouvir reclamação de cliente, sair do trabalho, perder o ônibus, subir ladeira até em casa, discutir com meu marido e finalmente, deitar para que tudo recomeçasse.
Aquela manhã haveria de ser diferente. Levantei. Realizei meu ritual normalmente enquanto esperava Sergio sair. Quando ele fechou a porta, desabei na cadeira. Não suportava mais aquela situação e minha atuação passara despercebida.
O despertador tocou uma vez, tocou duas, na terceira o silenciei. Não seria sua refém hoje. Se me ligassem, não atenderia. O dia seria meu. Quem sabe assim eu não tomaria as rédeas da minha vida novamente. A sensação foi tão boa quanto se tirasse um sutiã que por anos apertasse meus seios. A transgressão da rotina me deixava animada. Não. Mais do que animada. Me deixava excitada.
Aproveitei, como se o mundo houvesse parado no tempo. Tive mil e uma ideias enquanto folhas e ervas fermentavam em contato com a água quente, tingindo o líquido transparente enquanto liberava um esplêndido odor de liberdade. Saboreei e inspirei profundamente o vapor, fechando com força meus olhos. Quando me dei por mim novamente...
— Senhora? — Chamou-me a moça atrás do balcão.
Pela primeira vez naquela manhã me bateu na consciência o que eu estava prestes a fazer. Como eu poderia largar uma vida inteira para trás? Casa quitada, uma carreira de treze anos, um casamento de oito. Eu só poderia ter enlouquecido.
— Para onde é a passagem? — Perguntou a atendente.
Aquela pergunta tão simples libertou a mulher que havia sido aprisionada por tanto tempo dentro de mim. Ela não queria voltar para uma casa caindo aos pedaços. Sentia repulsa em pisar mais uma vez naquele escritório cheio de homens que gritavam para todos que quisessem ouvir que as mulheres mereciam os mesmos direitos, mas que no fim, não perdiam a oportunidade de dar um abraço mais apertado nas secretarias e de oferecerem tão gentilmente caronas, apenas esperando o momento para botar suas garras nas coxas que o uniforme não cobria. Mas, seu coração se dividiu quando lembrou do seu amor. Por tanto tempo amou aquele homem que sempre fez de tudo para realizar seus desejos, a apoiou nas decisões difíceis, cedeu seu ombro nas perdas familiares. No fundo, ela já não sentia mais nada por ele. Nada de errado aconteceu, apenas mudou o que sentia. Eu, não o amava mais.
— Bali!? — Falei dizendo o primeiro local que apareceu em minha mente. — Quero uma passagem para Bali!
— Para quando quer que eu ponha a passagem de volta?
— Volta? Dessa vez não haverá volta, só ida.
Fim?
Não. Recomeço!
🤔Qual a sua primeira parada se você jogasse tudo para o ar e fosse recomeçar sua vida?
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💙Créditos Imagem: Dir Surya - artstation.com/dirsurya
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