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Amigo Secreto

Foto do escritor:  Nicolas Azobrab
Nicolas Azobrab
28 de dez. de 2020
4 min de leitura


Odiei o nome que sorteei no amigo secreto. P0rra, de todo mundo da equipe de quarenta e três funcionários, fui tirar logo o nerdão do T.I. Nem para ser a gostosa da Cynthia ou a Ana Paula, tudo bem que ela é casada, mas sempre da para dar uma bolinada sem que ela perceba. Uma pessoa da minha posição não deveria ser relacionado com alguém como aquele merda.

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Infelizmente não posso entregar na frente de todo mundo um presente b0sta, senão vão achar ruim e perderei uns pontos com o chefe que, não intendo o porque, adora aquele filho da puta.

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Notei que ele sempre chegava com um livro de baixo do braço que eu fazia questão em derrubar no chão. Era muito engraçado ver ele todo preocupado com aquele monte de histórias infantis, afinal, essas aventuras de heróis, dragões e fadinhas, só criancinhas gostam.

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Fiquei tão puto que deixei para comprar algo em cima da hora. Passei a tarde procurando um livro de presente na internet. Claro, escolheria o mais barato e zoado que pudesse encontrar, mas não deveria ficar tão na cara meu ato de rebeldia.

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Entrei no site de um sebo e mal pude conter minha alegria ao ver tanta velharia que eu poderia escolher sem que prejudicasse meu bolso. Procurei um menos detonado. Dentre as opções havia um com um título zoado demais: A volta do Parafuso. Certeza que deveria ser alguma história de marceneiro. Duvido que o cara soubesse como segurar uma chave de fenda. Seria esse mesmo. Adicionei a compra no carrinho virtual e quando fui avançar para a forma de pagamento, surgiu um pop-up com a propaganda de um livro.


Não pensei duas vezes. Cliquei no link, selecionei a opção “presente” e fiz o pedido. Para minha sorte foi o site indicava que o livro chegaria no dia seguinte, bem a tempo da festa de amigo secreto. ⠀ Dito e feito. Às nove horas da manhã o livro estava embrulhado na minha porta. Como pedido, ele já estava embalado, não era a melhor trabalho do mundo, mas dava para o gasto. Não que eu ligasse para isso. Pude aproveitar o resto do dia para pensar em uma roupa que pudesse usar para chamar a atenção da mulherada, e quem sabe, até poderia oferecer uma “carona” para uma que tivesse bebido um pouco além da conta. ⠀ Cheguei na festa toda decorada com enfeites e luzes natalinas. Todo mundo me olhava, admirados com meus cabelos milimetricamente ajustados com uma pomada cara, minha camisa social justa que revelavam os músculos do meu peitoral e minha postura de macho alfa. Mandei aquele olhar 43 para as gatinhas e cumprimentei meu chefe. Ignorei a presença do palerma do T.I que já estava junto dele. ⠀ A festa rolou. Bebi umas loiras bem geladas, dei um cheiro na garota do RH, mas acho que ela não gostou muito. Foda-se ela. A música parou e o nosso superior informou que iria começar as trocas de presentes. Como imaginei, foi aquela chatice de sempre: levanta uma pessoa, fala as características de outra e o pessoal tenta adivinhar quem é. Às vezes demora, mas na maioria o pessoal saca de primeira. ⠀ Marcão indicou que o próximo seria eu, quando exaltou minhas qualidades másculas e me deu um belo canivete suíço com lamina dupla serrilhada. Aquele cara sabia como me agradar. ⠀ — O meu “presenteado” — me recusei a chamar aquele “v1rjã0” de amigo — É uma pessoa que adora livros de criança — me senti feliz para caralho quando vi que o m3rd1nh@ já adivinhou ser para ele — Um cara que está sempre bajulando a chefia… ⠀ — Ok Caíque, pode parar por aí — disse meu chefe me interrompendo — Vai lá Lucas receber seu presente. ⠀ O nerdão se levantou todo devagar. Se tivesse um ventilador perto eu imagino que ele seria derrubado no chão pela força do vento. Seria hilário. Me aproximei dele e entreguei o pacote. Brinquei com o canivete e percebi o medo dele de que eu fosse fazer alguma coisa. Ele rasgou a embalagem e folheou o livro. Fechou o volume único de “Contagem Regressiva” e subitamente parou de tremer. Ajustou a postura. Algo naquele gesto me pareceu estranho, quase sobrenatural. Senti minha mão ficar leve. Ele ergueu o rosto me olhando nos olhos e sorriu. Ouvi um grito abafado no fundo. ⠀ — Três! ⠀ Não entendi de imediato o que havia acontecido. Senti uma leve tontura e um calor irradiando pelo meu peito enquanto ouvia uma algazarra se formar ao nosso redor. ⠀ — Dois! ⠀ O ar abandonou meus pulmões. Um odor penetrante de ferro invadiu minhas narinas e passei a mão nua sobre minha camisa encharcada. ⠀ — Um! ⠀ Minha visão ficou turva enquanto eu caia no chão em meio ao caos da festa. ⠀ — Morra! — disse um Lucas que eu nunca havia conhecido, empunhando em uma mão o canivete que eu acabara de ganhar embebedado com meu sangue e na outra, o livro com o qual eu o presenteara. ⠀ Fim ⠀

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------------------------------------------------------------------ ⠀ Segundo conto da semana do Natal Bizarro!!! ⠀ A ideia desse conto veio da @viajantesgeeks(Instagram): ⠀ "Livro que possui quem ler" ⠀ ------------------------------------------------------------------ Deixe suas críticas e comentários abaixo. ⠀ Obrigado por serem os melhores leitores e leitoras sempre!!! ⠀ Nos vemos na próxima, um abraço virtual e até a próxima!

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