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A Quetzaia

Foto do escritor:  Nicolas Azobrab
Nicolas Azobrab
26 de nov. de 2020
6 min de leitura


Buscando aprovação de seu povo, Alareya se tornou uma deusa.


Com seus olhos negros, peito e penas cinzentas, ela foi considerada amaldiçoada pelo pai que decidiu abandonar a família. Cresceu a margem do bando. Era excluída pelas Quetzaias de mesma idade e vítima de bulling pelos Quetzals. Jurou para si mesma de que iria fazer todos eles a respeitarem.


Tendo sua inscrição para o exército rejeitada, Alareya se submeteu a trabalhos de transporte de cargas e plantio nas lavouras de pedras. No início, seus chefes faziam de tudo para que ela não finalizasse seus afazeres, aumentando o peso das cargas, diminuindo o tempo das entregas, indicando a quebra de rochas cada vez maiores e ordenando cada vez mais o plantio de “citras”(flor de 5 pétalas arroxeadas que gera um fruto muito utilizado no preparo de alimentos), para terem desculpas ao diminuírem os seus pagamentos. Não baixou sua cabeça para as dificuldades impostas e com esforço redobrado, pensando no futuro, se esforçou além do seu próprio limite para realizar as tarefas, apesar das dores constantes nos braços e nas costas.


Com o passar do tempo, tornou-se a joia dos patrões que aprenderam a admirá-la. Fazia as entregas mais longas e urgentes, voando numa velocidade aquém que qualquer Querzal adulto poderia fazer, carregava as maiores encomendas e moía pedras e rochas facilmente, munida apenas de sua picareta.


— Alay, acredito que chegou a hora de você tentar entrar no exército novamente — disse Quirya, sua mãe, deitada na rede coberta por suas asas.


— Não sei Mah, ainda continuo sendo a “alada das trevas”, como eles adoram me chamar — respondeu cabisbaixa — Infelizmente eles só enxergam as cores das minhas penas e não o que tenho a oferecer.


— Existe uma maneira de você ser aceita!


— Como assim Mahma? — falou surpresa.


— Um combate! Desafie a melhor guerreira alada, se obtiver a vitória, elas terão que te aceitar na tropa e mesmo que perca, se tiver uma luta honrada, ganhara o respeito das demais que podem votar para aceitá-la ou não na equipe.


— Impossível! Lyira é a melhor guerreira, eu não tenho nenhuma chance contra ela.


— Você é mais forte do que imagina Alay, confie em si e lembre-se da promessa que tantas vezes a ouvi repetir. Não vou durar muito nesse mundo e a guerra se aproxima.


A guerra havia chegado e com ela sua mãe adoecia cada vez mais. Tentou de tudo para conseguir os remédios que se tornavam mais difíceis de encontrar e cada vez menos eficazes. Largou o trabalho contrariando a alta demanda e passou os últimos dias cuidando da Quetzaia que a trouxe para o mundo e a amou, acima de qualquer ódio que tenha recebido dos demais. Quando a luz deixou os olhos de Quirya, ela chorou. Quando as lagrimas secaram e a razão se impôs perante os sentimentos, soube o que deveria fazer.


Foi até o pátio do exército e exigiu um combate com a guerreira mais forte.


Lyira com suas garras que cortariam um naco de carne sem qualquer esforço e com sua plumagem esverdeada de dar inveja em qualquer Quetzaia, olhou Alareya de cima a baixo inspecionando-a.


— Esta regra não se aplica a você, “Alada das trevas”, apenas aos exilados e guerreiros caídos que buscam uma oportunidade de terem seu status renovado, podem se beneficiar dela. — disse Lyira lançando um olhar de desprezo que só a alta classe dos Quetzels sabia fazer. — Mas a guerra já nos alcançou e toda ajuda é necessária, porem, você terá que provar seu valor! Vá até o desfiladeiro de Kaakza e resgate os guerreiros capturados e eu a aceitarei em minhas tropas.


Um murmúrio se espalhou entre as Quetzaias: “Impossível”, “Apenas um exército poderia tentar salva-los, ela não tem chance”, “é uma missão suicida”, “ela é fraca”, “não vai durar até o nascer dos sóis”…


— Eu irei! — respondeu contrariando o falatório.


***


Alareya vestiu a armadura que lhe deram. As amarras frouxas e o metal rachado com marcas de ferrugem, indicavam que as guerreiras não tinham esperanças de sua volta. Olhou nos olhos de Lyira que parecia se divertir com a situação e se alçou aos céus.


Antes de se encaminhar para o seu destino, passou na lavoura, que por tanto tempo foi seu ganha-pão, e colheu com muito cuidado uma dúzia de Citras. Rezou em silêncio para sua mãe pedindo coragem e forças para o que teria de fazer. Alongou a plumagem de seus braços, chacoalhou a cabeça se livrando de qualquer medo que ainda a dominasse e partiu para Kaakza.


O desfiladeiro era uma armadilha como ela previra. Tendo apenas os céus como entrada principal, os inimigos que lá se encontravam se prepararam para defender seu espaço com diversas armadilhas. Alareya se posicionou de maneira que não pudesse ser vista do alto e aguçou seu olhar aquilino procurando pelos prisioneiros. Cinco Quetzaias se encontravam dentro de uma jaula no centro do acampamento. O resgate sem combate seria impossível.


Com seu plano improvisado em mente, ajeitou a bolsa em seu peitoral, cruzou os braços em forma de “xis” na frente do corpo, inspirou profundamente uma última vez e se jogou para dentro do desfiladeiro.


***


O primeiro guerreiro que notou sua presença berrou para os demais. Utilizando a força bruta de seus quatro braços das costas, girou uma válvula ativando uma armadilha. Um lençol de chamas cobriu o acampamento bloqueando a luz do luar. Os guerreiros de cabelos compridos, olhavam para o céu que queimava prontos para a batalha quando um vulto cinzento atravessou a cortina avermelhada.


Alareya sentia o ardor percorrer seu corpo. Suas penas se tornavam frágeis. A queda parecia cada vez mais perigosa. Flechas incandescentes chacoalhavam o ar ao seu redor emitindo um ruído quando passavam. Medindo com precisão a distância entre ela e o chão, esticou seus braços com muito esforço e planou no ar a poucos centímetros da gaiola retangular que prendia as Quetzaias.


O olhar incrédulo das guerreiras diante aquela aparição cinzenta, possuíam um misto de satisfação e medo.


Pousou na grade e com as garras dos pés agarrou o metal. Não esperou por gritos de alegria, escutava apenas o crepitar das chamas e o berro dos inimigos. Flexionou os músculos e bateu as asas levando consigo a jaula. As penas danificadas e o calor, tornavam o resgate desgastante. Usava toda força que tinha para conseguir escapar através da cortina rubra quando uma flecha disparada se cravou em sua perna. Com o cansaço do esforço e a dor que irradiava do ferimento, soltou a jaula deixando as companheiras de mesma espécie cair de volta aos braços dos inimigos.


O ardor em seus olhos, misturado com o fracasso, fez com que lágrimas irrompessem. Determinada a provar o seu valor, abriu sua bolsa e tirou de dentro as Citras. Adentrou o céu em chamas e deixou o fogo envolver seu corpo.


O som de uma montanha sendo demolida irrompeu em meio a uma explosão arroxeada. A reação das pétalas da flor sendo partidas, criou rochas que desabaram como uma chuva sobre o acampamento, destruindo armadilhas e construções. Os guerreiros de seis braços que não morreram esmagados, tentavam correr para salvar suas vidas.


***


Imaginando-se coberta pelo fogo, Alareya acordou gritando. Desorientada, observou o ambiente ao seu redor e constatou que estava em uma tenda. Cinco figuras se encontravam ajoelhadas entorno de sua cama.


— O que está acontecendo? — perguntou — Como vim parar aqui?


A alada mais próxima se levantou.


— O seu ato de heroísmo me salvou — disse Niraye olhando para as outras ajoelhadas — Nos salvou! Após provocar a chuva de pedras, a luz da lua banhou seu corpo e impediu que você caísse para a morte certa. De alguma maneira o poder da flor foi infundido nas suas penas.


— Do que você está falando? — olhou para seus braços cobertos por uma plumagem com tons de azul e roxo formando pequenos cristais rochosos nas pontas.


— Você foi abençoada pela Lua! — falou com a emoção transbordando em sua voz — Você é o que temos de mais próximo das deusas agora — finalizou envolvendo a mão calejada de Alareya com um beijando.


Um desespero repentino invadiu seu corpo. Livrou-se das mãos de Niraye, levantou-se da cama e saiu correndo da tenda. O Sol penetrou seus olhos enquanto ainda tentava se ajustar a iluminação. Uma revoada de Quetz se encontravam barrados apenas por um cordão formado de guerreiras aladas. O bando ao avistá-la se ajoelhou um a um fazendo uma reverência.


Lyira se aproximou. Ficou de frente para a Quetzaia, sustentou seu olhar encarando-a e com uma mesura, se ajoelhou.


🗨️Curiosidades:


🤔Pensando com meus botões em uma maneira de expandir o universo apresentado na história "Eu desejo"(Caso não tenha lido, procure no feed uma lâmpada magica, ela fez parte da Semana da Bizarrice), tentei imaginar um povo rival que batesse de frente com as criaturas de 6 braços e longas e honradas madeixas. Assim foi criado os Quetz, seres alados esguios com corpo preenchido de penas coloridas e grandes garras fortes.


🐦🦅A Raça dos Quetz foi levemente inspirada em uma espécie de pássaro chamada Quetzal, são umas coisinhas muito fofas se vc for pesquisar rsrs


🏵️A flor de Citra possui uma rara magia que quando reage com o calor, faz com que cristais se formem e ajudem a quebrar ossos das caças nas receitas. Seu plantio é dificultado pela sensibilidade das pétalas q ao quebrarem, por força do vento mesmo, criam rochas que precisam ser pulverizadas evitando assim uma reação em cadeia.

😵(Coitada da Alareya quando batia um vento um pouco mais forte ou se os chefes resolvessem sacanea-la neh)



😜Deixe suas duvidas, críticas e comentários abaixo.

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❤️Obrigado por serem os melhores leitores e leitoras sempre!!!


😉Um abraço cheio de penas e até a próxima!

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