A Descida


João Guilherme acordou de súbito quando a energia acabou. Na escuridão, tateou o móvel ao lado da cama em busca do seu celular, que apesar de conectado na tomada, se encontrava descarregado.
Sentou e esperou sua visão se acostumar com a escuridão. Levantou, caminhou até a janela e olhou para a paisagem cheia de prédios. A cidade que outrora pulsava vida noturna com suas pulsantes luzes neon e carros com faróis altos, agora se via completamente apagada. Sentiu um grande desconforto ao perceber que além das sombras que abraçavam cada centímetro de cimento dos prédios, não ouvia um único som. A metrópole que conhecia a trinta anos agora estava morta.
Procurou nos armários uma lanterna. Não encontrou. Tentou acender uma vela na boca do fogão. Sem eletricidade, não conseguiu. Lamentou ter se livrado dos últimos fósforos, quatro dias atrás. Xingou e gritou de raiva esperando que alguém o ouvisse, mas o apartamento vazio só lhe devolveu o silêncio de volta.
A ansiedade lhe atacou e a vontade por fumar cresceu. Pegou um cigarro em um maço que escondia na gaveta do armário e o botou na boca. O familiar toque macio nos lábios, lhe trazia uma sensação de nostalgia. A vontade de tragar o vapor do cano queimado lhe corroía por dentro. Num gesto impulsivo pegou uma jaqueta que estava largada no sofá, a vestiu e saiu do apartamento. Iria atrás de algo para matar sua vontade.
Três vezes apertou o botão do elevador que não funcionava. Decidiu descer pelas escadas de emergência. Abriu a porta do corredor que levava até a descida e tateou as paredes até encontrar o corrimão. O bastão de nicotina rolava pelos seus lábios que ansiavam pelo prazer instantâneo que só ele poderia gerar. Encontrou o primeiro degrau e começou a descer vagarosamente tomando todo cuidado.
Desceu, desceu e desceu. Perdeu a noção de quanto tempo estava naquelas escadaria em forma de caracol. Seu apartamento ficava no quinto andar, já deveria ter chegado no térreo.
Seu peito subia e descia como o motor de um carro em combustão. A falta de ar devido aos anos de sedentarismo e tabaco, começava a se tornar mais intensa. Cansado, pensava em desistir, mas o desespero por não chegar a lugar nenhum naquele breu não o deixava parar. Arriscou saltar os degraus. Pensou ser o jeito mais rápido. Chegaria ao final da escadaria logo.
Descuidado, trançou os pés na escuridão e caiu. Rolou escada abaixo. O gosto do papel nicotizado se misturava com o sabor do sangue enquanto o impacto dos dentes contra o concreto perfurava sua carne. O fumo entrava em sua carne provocando um ardor que só perdia em dor para o impacto do corpo repetidamente com os degraus.
Acordou suando. Passou a mão pela cabeça e retirou os incômodos eletrodos que monitoravam sua atividade cerebral.
— João, ótimo avanço hoje! — Disse doutor Edgar.
— Quantas sessões ainda faltam doutor? — Disse visivelmente cansado.
— Não sejamos apressados, o tratamento varia de pessoa para pessoa, mas acredito que no seu caso não vamos precisar de muitas mais.
— Assim espero! É sempre uma tortura quando venha aqui.
— Esse é o método mais rápido de largar a nicotina, terá que ser aguentar firme se quiser se livrar dela!
João bufou.
— Até a próxima doutor.
Ideia: João acordou e desceu as escadas do prédio....
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